01/06/2012 - 15h56

Nas manhãs da velha Urbe

Na manha mágica do mês de outubro os anjinhos barrocos da Igreja do Rosário não suportando o calor da brejeira vila saíram a valsar pelas ruas, nus vagavam sem destino, juntos brincavam na mais inocente das cirandas, fazendo rir os velhos fantasmas condoídos de seus pecados. Os anjinhos barrocos vagavam pela Rua do Fogo atrás do som doce da flauta de Possi e do bandolim mágico de dona Aracy... Bailavam em frenéticos movimentos na mais pura inocência de quem não tinha pressa que o tempo passe. Na Rua da Feira roubavam os pomos amarelos colhidos nas quintas verdejantes do Mocha, antes mesmo que fossem surpreendidos, correram rumo a Igreja da Conceição, mas temendo serem visto por alguém, debandaram-se no rumo do Buringa, ali estavam no lugar proibido que por muitas vezes foram alerdados de nunca irem, mas já era tarde, estavam na geografia úmida do prazer da velha cidade, a dois passos do cabaré de Ciço Cego. Mas nada poderiam fazer, a não ser levantar as saias das raparigas e saírem correndo, corriam de mãos dadas e por entre a mata de Maria mole, ali estavam os anjinhos nas margens do mocha, e despretensiosamente atiravam-se nas águas cálidas do riacho... Profanas eram as águas que escorria homogeneizada com a espuma do sabão das lavadeiras que lavavam a hipocrisia da cidade. Antes que o dia repousa-se no poente, teriam tempo de passar na casa de Zé de Pedão, e lambuzar-se com o doce que o bondoso homem colocava sempre na janela para esfriar. Quanta traquinagem, quanta inocência... Os anjinhos depois de saírem livres pelas ruas da urbe encantada deveriam esta de volta ao Rosário antes das seis; Dito e feito! Ali estavam... Logo que Balbina, a baronesa da Doce Colina arrastou a porta, aproveitaram do barulho e voltaram cada um para seu lugar. E eternamente reinaram nas horas em que o tempo vira poesia e o povo entreter-se na vida alheia e nas coisas do passado. Junior Vianna